3 meses entre céu e mar
Tenho curiosidade pelo cotidiano, pela vida ordinária e comum. Pelo meu vizinho de prédio que era um piazinho, mudou-se enquanto morava com o pai e o irmão (supostamente?) e agora esporadicamente re-aparece para visitá-los, já como um rapagão. Quando ele sumiu, fiquei pensando sobre sua ausência: foi morar com a mãe, mudou-se de cidade?
Mas sempre que ele aparece fico feliz, ele está ali, grande, saudável, aparentemente feliz – dá para sentir que a casa fica cheia, que as pessoas estão alegres. A vida se enche de detalhes e de presenças.
Outro vizinho de prédio, que eu via menos, era concurseiro – quem sabe, sabe. No meu achismo, ele estava estudando para a Petrobras. E foram anos: anos vendo a dedicação, madrugadas com a luz ligada, pilhas de apostilas e livros – até que, um dia, não o vi mais. Espero que esteja trabalhando em algum lugar para a estatal sendo muito feliz como empregado público.
A vida também pode ser um vaso de plantas. Você, na viagem dos seus sonhos, buscando uma realização de vida, está passeando em alguma cidade italiana e pá-pum: um vaso de flor despenca de uma janela e ali acaba sua jornada de vida. O objeto poderia ter caído um pouco para a direita ou três segundos depois, e esta pessoa teria apenas mais um causo para contar das últimas férias.
Contudo, a vida pode ser vasta. Dentro do Plural, um portal de notícias aqui de Curitiba, eles enviam os falecimentos ocorridos na cidade pelo whatsapp. Um dia resolvi ler. Me chamam a atenção aqueles falecimentos de seres tão novos que não conseguiram viver a vida e daqueles que viveram por longos períodos. Os mais jovens que nos deixam causam uma tristeza, um vazio, uma não-oportunidade.
E há aqueles (principalmente aquelas) que têm a chance de uma vida duradoura. E tenho uma concepção de que vida longeva não significa majoritariamente uma vida mais plena ou completa. Pode ser apenas mais complexa. E difícil.
Voltando ao Plural, um falecimento atraiu minha atenção: uma pessoa de 98 anos – idade que minha avó teria se viva fosse. Jogando no google, descobri um pouco da história da senhora Maria Baudy Wos.
Em um vídeo que encontrei, ela conta histórias que esquecemos. De uma época onde o que se comprava era sal, açúcar e café: o resto se obtinha com a cultura da subsistência, daquilo que se planta e colhe. Fora as histórias lindas da família: “Você não é nem polonesa nem brasileira, você é marinheira.”
O pão no final do vídeo me fez sentir saudade.